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	<title>InfoJovem &#187; Gangues</title>
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		<title>Estudo sobre a participação feminina nas gangues em Brasília &#8211; DF</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 19:51:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Ditta Dolejsiova]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[A tendência é mundial. No Brasil, como no mundo, as meninas estão cada vez mais presentes em gangues e de forma mais ousada, enfática e participativa. Em paralelo a um processo crescente de vitimização e vulnerabilidade dos jovens, a multiplicação destas redes sociais já acontece em todo o país. Ironicamente, o Distrito Federal – sede do Governo brasileiro e onde são traçadas as diretrizes fundamentais para promoção dos direitos dos adolescentes – é a região na qual a questão social das gangues se delineia de forma mais dramática, apresentando o retrato mais característico de uma juventude brasileira que vive no limiar entre o legal e o ilegal.

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				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-5466" title="ganges femininas" src="http://infojovem.org.br/wp-content/uploads/2010/07/ganges-femininas.jpg" alt="" width="208" height="146" /></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">A tendência é mundial. No Brasil, como no mundo, as meninas estão cada vez mais presentes em gangues e de forma mais ousada, enfática e participativa. Em paralelo a um processo crescente de vitimização e vulnerabilidade dos jovens, a multiplicação destas redes sociais já acontece em todo o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Ironicamente, o Distrito Federal – sede do Governo brasileiro e onde são traçadas as diretrizes fundamentais para promoção dos direitos dos adolescentes – é a região na qual a questão social das gangues se delineia de forma mais dramática, apresentando o retrato mais característico de uma juventude brasileira que vive no limiar entre o legal e o ilegal.</p>
<p style="text-align: justify;">A socióloga Miriam Abramovay, coordenadora de pesquisa da Rede de Informação Tecnológica Latino-americana (Ritla), acompanha o incremento da participação feminina nas gangues há mais de 10 anos – época em que publicou, pela Unesco, um livro-pesquisa sobre a relação entre a juventude e a violência brasilienses. &#8220;Desde aquele momento, percebi que as poucas meninas que já integravam estas redes desempenhavam papéis muito subordinados: essencialmente, elas ajudavam os namorados &#8216;gangueiros&#8217;. Chamou minha atenção também não encontrar por aqui gangues exclusivamente femininas, como as que existem nos Estados Unidos, por exemplo&#8221;, explica Miriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa curiosidade a fez mobilizar esforços para uma nova pesquisa, agora com foco nas relações e representações de gênero nas gangues do Distrito Federal, que durou três anos. O resultado está nas 314 páginas do livro “Gangues, gênero e juventudes: donas de rocha e sujeitos cabulosos&#8221;, lançado em junho e que representa um passo inédito no estudo da questão de gênero dos grupos de jovens brasileiros.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa obteve diversas conclusões no que diz respeito à questão das relações de gênero dentro das gangues de Brasília. Questões como gravidez não planejada, abortos, sofrimento por amores rompidos, disputa entre mulheres por homens – comumente líderes nas gangues -, namoros, traições e as experiências de “ficar” e “pegar” permearam as entrevistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os meninos de gangues reproduzem padrões tradicionais de comportamento machista: apelidam as meninas com nomes depreciativos e separam as que acham que podem namorar, “ficar” ou ter algum tipo de aventura. Eles ainda tendem a qualificá-las como fracas, falsas e não confiáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, de acordo com o estudo, há aquelas que são respeitadas, consideradas brothers, companheiras de aventura e protegidas nas festas e brigas. As que merecem este tratamento, parece ser muito mais por demonstrarem valentia e lealdade à gangue e serem “boas de briga”, do que por terem algum tipo de relação de afeto ou sexual com outros gangueiros. Muito poucas são consideradas &#8220;donas de rocha&#8221;, gíria dos gangueiros para definir as mulheres valentes, enquanto muitos meninos podem ser &#8220;sujeitos cabulosos&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">As meninas não necessariamente passam a idéia estereotipada de fragilidade ou submissão. “Em relação às questões de gênero, muita coisa mudou e muita coisa ainda é igual: se antes as meninas eram apenas namoradas e ajudavam, hoje as gangues possuem alas e setores femininos e as mulheres têm funções mais definidas. Elas não desempenham somente um papel acessório. Mas ainda há gangues exclusivas de meninos, que tratam as jovens de maneira pejorativa”, afirma Miriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo a pesquisa, o poder feminino nas gangues é comumente exercido sobre outras meninas ou novatas. Nas entrevistas e grupos focais, os pesquisadores puderam notar que as meninas falam mais entre elas, se contam vantagens, mas na presença dos homens elas se calam e são eles que detêm o privilégio da palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o grupo de estudiosos observou que nem todas as meninas rompem com a divisão sexual do trabalho e muitas permanecem desempenhando papéis bem subordinados – despistar a polícia, servir de isca e carregar a lata de spray. Mas há também aquelas que não aceitam passivamente esta restrição e picham, brigam, enfrentam a polícia e as gangues rivais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mergulho profundo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para entender o papel das meninas nas gangues candangas, a equipe de pesquisa mergulhou no universo das gangues de Brasília. A pesquisa mapeou o cotidiano dos 13 principais grupos de pichadores que atuam na capital federal – tanto no Plano Piloto quanto nas periferias -, traçando um perfil dos jovens que as integram por meio da imersão na pesquisa de campo, com acompanhamento contínuo e entrevistas com 73 membros. &#8220;Selecionamos gangues essencialmente de pichação. Individualmente, eles podem até vender droga, mas a atividade não pode ser caracterizada como tráfico&#8221;, explica Miriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo a pesquisadora, o que estes jovens querem, de fato, é ocupar os espaços da cidade. Basicamente, muros. E eles fazem isso através da pichação. A coordenadora do estudo explica que os membros de gangues têm muita dificuldade em se relacionar com a cidade e seus espaços, e por isso querem marcá-la publicamente com suas assinaturas.</p>
<p style="text-align: justify;">No prefácio do livro, o antropólogo Luiz Eduardo Soares define as gangues como &#8220;redes sociais de jovens que empregam suas energias em intervenções transgressoras no espaço urbano, mobilizando a violência como forma de linguagem ordinária&#8221;. &#8220;Seu sentimento em relação à sociedade é de raiva e revolta. Se consideram injustiçados e sem espaço. Falam muito mal da polícia e dos políticos&#8221;, afirma Miriam.</p>
<p style="text-align: justify;">A origem destes jovens é distinta. Se há 10 anos, em seu primeiro estudo, a socióloga detectou gangues distintas no Plano Piloto e na periferia de Brasília, hoje, segundo ela, o cenário é mais homogêneo. &#8220;Tudo está misturado, classe média com classe baixa. As gangues não têm mais localidades geográficas específicas, elas atuam e podem estar em vários lugares&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">O estudo concluiu que a idade média dos gangueiros oscila entre 16 e 17 anos, embora haja exceções. Seu cotidiano varia, mas grande parte deles está na escola, trabalha e alguns até cursam faculdade. Eles contaram aos pesquisadores que costumam começar a pichar na escola &#8211; já que não se interessam em aprender o conteúdo que é ali ensinado, os ensinos Fundamental e Médio servem para o aprendizado e aprimoramento do grafite e para o treino sua assinatura, sua identidade dentro da gangue.</p>
<p style="text-align: justify;">A gangue é parte de uma vida dupla que eles tocam. Estar ali, pertencer a ela e pichar em lugares ousados e arriscados é a adrenalina que move a participação destes jovens. Muitos integrantes vão envelhecendo e não conseguem largar o grupo. A pichação é praticamente um vício&#8221;, revela Miriam, a partir do contato que travou com as gangues. Ela conta que ficou surpresa quando soube que muitos dos gangueiros entrevistados conheciam seu livro sobre o tema e que faziam questão de participar da pesquisa.</p>
<p style="text-align: justify;">O grupo de pesquisadores aproveitou esta empolgação e levou muitos jovens de volta às escolas, já que estipulou a frequênica às aulas como pré-requisito para participar dos grupos focais. &#8220;Os adolescentes foram muito cooperativos com nossa equipe. Foi uma relação de troca, pois eles recorriam e contavam conosco em diversos momentos de necessidade &#8211; situações como detenção, gravidez e parto, etc. São jovens completamente desprotegidos, não têm apoio algum do Estado e nem mesmo de suas famílias, fragilizadas, impotentes e incapazes de interferir na atuação dos filhos nas gangues&#8221;, detalha Miriam.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é fruto de parceria entre a Ritla, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e também a Central Única de Favelas (Cufa-DF). Max Maciel, coordenador geral da Cufa-DF e co-autor do livro, explica que a Central serviu como ponte de aproximação entre o grupo de pesquisa e as gangues. Ele diz ter tido uma trajetória de vida muito parecida com as dos gangueiros e gangueiras brasilienses: busca pela auto-afirmação, reconhecimento, poder e prestígio. Mesmos problemas e anseios, porém rumos distintos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;As Cufas são comunidades que convivem com várias práticas urbanas, inclusive as gangues. Por isso, servimos como ponte de aproximação e, é claro, como uma interface de confiança, com linguagem bem próxima destes jovens. A Cufa vivencia com proximidade a realidade deles, mas ajudar a promover esta pesquisa é, para nós, uma maneira de saber, de fato, quem realmente são estes jovens, tantas vezes taxados como delinquentes e marginais, e como se articulam e se organizam. Sabemos com clareza, hoje, que eles não são delinquentes – apesar de alguns cometerem delitos –, mas sim jovens de potencial desperdiçado pela ausência de uma rede de controle social”, defende Max.</p>
<p style="text-align: justify;">A epígrafe do livro traz uma música da funkeira Tati Quebra Barraco, cuja letra exalta a valentia da mulher. O grupo de co-autores chegou a considerar a hipótese de convidar os gangueiros, tão importantes para a pesquisa, para seu lançamento, mas logo abandonou a ideia. &#8220;Ficamos com medo de reuni-los num só local pois eles pertencem a gangues rivais. E o sentimento de vingança e rixa é muito grande&#8221;, conta Miriam Abramovay.</p>
<p style="text-align: justify;">A realidade observada minuciosamente no livro é bem peculiar aos jovens do DF. Ainda em seu prefácio à publicação, Luiz Eduardo Soares a define como uma &#8220;cartografia hermenêutica de um drama social específico&#8221;, ressaltando o quanto a cidade de Brasília já é caracterizada pela presença das gangues.<br />
<strong><br />
Arquitetura estimula formação de gangues</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para Miriam, a arquitetura da cidade &#8211; planejada por Oscar Niemeyer e internacionalmente conhecida &#8211; estimulou a formação de gangues. &#8220;A arquitetura de Brasília é das mais pérfidas que existe. Ela não possibilita nenhum tipo de mistura social. A questão das rixas entre grupos de quadras diferentes já existe há muito tempo, data quase da construção da cidade&#8221;, polemiza Miriam. O estudo, portanto, não se pretende um instrumento de orientação para análise de padrões flagrados fora da órbita de Brasília e das cidades-satélite do DF.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela crê que a opinião generalizada sobre a juventude é negativa. Em relação às gangues, sobre as quais a sociedade mal sabe quem é quem, a lógica e dinâmica que regem estes grupos, a opinião, logo, é pior ainda. &#8220;A sociedade tem medo do jovem, em geral. Nós mesmos acabamos criminalizando nossa juventude. Brasília tem que ser mais inclusiva. As secretarias de Educação, Saúde e Segurança Pública precisam se unir para propor políticas de inclusão para estes adolescentes&#8221;, propõe.</p>
<p style="text-align: justify;">Para ter acesso à íntegra da pesquisa, <a href="http://www.cufadf.org/pesquisa_cufa_gangues.pdf" target="_blank"><span style="color: #ff6600;"><span style="text-decoration: underline;">clique aqui</span></span></a></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.comunidadesegura.org/pt-br/MATERIA-meninas-valentes-do-distrito-federal" target="_blank"><span style="color: #ff6600;"><span style="text-decoration: underline;">Fonte</span></span></a></p>
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