Fortaleza 4ª capital em assassinato de jovens

Imagem: Campanha_contra_violencia

 

Risco de morte devido à violência urbana; brigas de gangues; disputas territoriais pelo comando do tráfico de drogas. Assim vivem alguns jovens moradores do Parque Santa Filomena, periferia de Fortaleza. O estudante C.B.F, 26, já viu diversos amigos morrerem na sua frente. “Dos 15 que andavam comigo na roda de crack, sete foram assassinados, tenho medo de ser o próximo. Vivo em perigo”, desabafou o garoto.

Dados, divulgados na edição de 2010 do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2009, confirmaram a realidade dos adolescentes que vivem na “linha” entre a vida e a morte, inserindo Fortaleza como a 4ª Capital do Nordeste que mais mata jovens entre 12 e 29 anos de idade, ficando atras apenas de Recife, Maceió e Salvador.

No ranking, a cidade aparece entre as 50 com maior exposição à violência, estando na 48º posição e com classificação de risco alto no Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ).

No relatório de 2009, a Capital cearense estava classificada com risco médio. Dados do Anuário mostram que, em 2008, 248 jovens entre 15 e 19 anos foram mortos por arma de fogo, e 536 na faixa entre 20 e 29 anos de idade.

Conforme dados do Diário do Nordeste só neste ano, 201 adolescentes já foram assassinados na Grande Fortaleza.

Reunidos no campo de futebol “Coritiba”, no Parque Santa Filomena, demais meninos e meninas colecionam histórias de risco e de violência sofrida. Para a garota R.L.S, 14, a vida sempre corre perigo. Ela viu o pai ser assassinado, convive com um irmão usuário de droga e teme pela proteção sua e de todos da família. “Vive morrendo jovem aqui no bairro, tenho medo de uma bala perdida me matar também”, afirmou.

Além dela, integrantes da ONG Meninos de Deus, do Conselho Nova Vida (Convida), sofrem com os medos e traumas de sair de casa. Muitos pedem para não ser identificados por estarem envolvidos em crimes e serem usuários de drogas, sequer podem ir à escola ou sair na calçada temendo pela própria integridade. “Vivemos na mira. Pedi ajuda para o grupo “Meninos de Deus” para que eu não morra. Ou eu vinha para a entidade tentar me livrar do tráfico ou ia para o caixão”, disse o jovem estudante H.J.M, 18.

Resgate

Tentando salvar vidas, o educador da entidade Meninos de Deus, Paulo Uchoa, realiza atividades com mais de 80 adolescentes que convivem com as vulnerabilidades sociais do crime, da falta de dinheiro, da fome, da ausência de escola pública de qualidade ou de um posto de saúde no Santa Filomena.

“Tem épocas que morrem três jovens por mês. Cada vida dessas é uma tristeza para mim, me mostra como eles correm riscos e precisam de ajuda, de um novo caminho, de mais dignidade e políticas públicas que lhes deem autoestima e força para sair desse ciclo da morte”, frisou o educador que toda semana treina futebol com os garotos, oferece palestras educativas e promove torneios.

Insegurança

201 Adolescentes foram assassinados somente este ano na Grande Fortaleza, de acordo com levantamento realizado pelo Diário do Nordeste

NA PERIFERIA

Adolescentes travam luta diária pela sobrevivência

Para a assistente social Eliane Lopes, membro da coordenação colegiada da Rede de Articulação do Jangurussu (Reajan), os jovens da periferia de Fortaleza travam uma luta diária pela sobrevivência, sofrendo com a violência urbana.

“Os adolescentes são vítimas e geradores dessa violência. A maioria que sofre e morre é o menino negro, pobre, morador da periferia, analfabeto e desempregado. Temos que ter mais investimentos em políticas públicas ao invés de repressão simples e pura para o combate aos crimes e assassinatos”, frisou a assistente social.

Já para a assessora jurídica e membro da coordenação colegiada do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca-Ceará), Nadja Furtado, há que ser ter muito cuidado com o conceito “vulnerabilidade” social. “Vulnerável não é uma condição inata dos jovens, mas uma situação imposta à eles na medida em que vivem em situações de vida ruim e indigna, sem educação de qualidade, por exemplo.

 

Fonte: Diário do Nordeste